quinta-feira, 12 de março de 2015

Argumentando com Deus sobre os mandamentos

Deus meu Deus
não vou roubar ou matar
mas que a vontade não me quite créditos

Não usarei seu santo nome em vão
já uma piada 
tem como propósito 
o sorriso alheio

As coisas do próximo
que as ponham onde bem couber
agora, a mulher do próximo meu Deus
usa um shortinho curtinho de lycra
perdoai-me senhor

Falso testemunho
não irei dizer
só uma mentirinha aqui e ali
pra sobreviver

A castidade
esse mandamento eu li
já era tarde

Domingos e festas
trabalho de garçom

Honrar pai e mãe
é o que mais quero
assim como ao senhor
dentro do possível 

Deus meus Deus
o senhor me fez sua imagem e semelhança
Deus
o senhor é doido mesmo

Traça

Seu ofício
           bem sabia:
roer poesia.
Morava e trabalhava
na prateleira
de um sebo distante
roendo palavras
               incessante

Um dia,
      não notada,
foi envelopada
viajou quilômetros
        até minha casa

O livro bolorento
me causou espirro
que acordou a bicha
sem cair sua ficha
de estar em perigo

Foi direto à cozinha
lanchar palavrinhas
coitada...
se achava esperta
morreu esmagada
na página aberta

Como sou bonzinho
deixarei sua lápide:
Aqui jaz
(já não existe mais)
assim com rimas
que adorava poemas
Mais poemas em: http://robertohenriquefernandes.blogspot.com.br/

Globalização amorosa

Carro dela me atropela
não sabia que haviam tantos por ai
o índice de acidentes aumentou muitíssimo no meu coração
meu erro conduz a lembrança sem habilitação


Dia-a-dia aquele frio na barriga
consolo faz da comida cobertor
gordura engorda baixa estima
bebo calórico obeso de amor
e ela nunca parou no drive thru
pra dizer: i Love you

Cantiga de mercado

Escolhendo legumes
aquele anjinho
na seção de bebidas
em desalinho

Sensatez ou loucura
eu quis saber
gosta muito de verdura
ou gosta mesmo é de beber?

Me aproximei do anjinho
pra conseguir seu apreço
de uma garrafa de vinho
falei de sabor e preço

Ela adorou a sugestão
levou o que eu tinha falado
logo me disse: não!
foi beber com namorado

Amor sobre rodas

A mocinha esperava ansiosa
pelo carro do namorado

Resumindo

Trago no pulso um relógio
para garantir
estar sempre atrasado.
Um batimento cardíaco
de um órgão murcho
feito uma boca idosa
que tanto prezo

Se me esforçar
um dia
entenderei prefácios
de poesia
no entanto
aceito a proposta do acaso

Minha mãe assistiu uma fita
de mim criança
perguntou:
por que seu olhar sempre foi triste?
não sei direito
mas isso magoou bastante

Olhar oblíquo

Faces interligadas
ainda que o sangue alheio
são muitas raças e formas no globo
mas humanos se multiplicam de maneira a esgotar a diversidade criativa do criador
Então geminou olhos não só em corpos gêmeos
entre pés mãos bocas seios
um par de olhos pra um coração
perdidos há quinhentos quilômetros numa metrópole
realçados sob óculos que os transpõe
e que estive tão perto
além dos alertas de perigo
digo, tão perto
provocou graves danos
pelo desejo permanente
de lhe fechar os olhos
lhe cravar a boca

Poema de All faces

Quando nasci
desconfio
que o anjo disse:
-vai vai vai depressa!!
calma anjo, tenho preguiça
e muitas dúvidas também

sofrer por mulher
é mal de poeta
isso já acostumei

sou simples, até mesmo forte
mas por mais que tente
não consigo ser sério

brigo e faço pazes com Deus
normal num relacionamento de amor
passei muito tempo fantasiando coisas
agora procuro sempre saber quem sou

mundo mundo
quando estiver moribundo
que tenha cumprido a sina
mundo
toda solução tem uma contradição que rima

não sei certo
mas era lua cheia
e o anjo estava mesmo bêbado

Dicionário romântico

Ambos:
num um
o outro
os dois

Dom Tom Batom

Tudo tem um tom
tudo tem um tom amigo
e tudo tem um dom

tudo tem um dom
e tudo tem batom
tudo tem batom amigo, e eu
como é que fico?

no tom desafino
batom desatino
e o dom amigo,
quem sabe não seja este